Em tempos de Mensalão, réu da Operação Rodin paga de celebridade em coluna social

O coordenador da campanha de Yeda Crusius (PSDB) e um dos condenados na Operação Rodin, Lair Ferst posa ao lado da esposa Denise Nunes./ Foto: Reprodução Diário de Canoas

O coordenador da campanha de Yeda Crusius (PSDB) e um dos condenados na Operação Rodin, Lair Ferst posa ao lado da esposa Denise Nunes./ Foto: Reprodução Diário de Canoas

Na semana em que os réus da Ação Penal 470, o chamado Mensalão do PT, são condenados à cadeia, o pivô de um dos maiores escândalos de corrupção do estado no Rio Grande do Sul aparece na coluna social de um jornal local. Lair Ferst, o delator premiado das investigações do Ministério Público Federal (MPF) no esquema de desvio de R$ 44 milhões do Detran – RS foi clicado pelo colunista social do jornal Diário de Canoas. Ao lado da sua esposa, a eterna miss Brasil Deise Nunes, o lobista que é um dos 32 réus da Operação Rodin segue gozando de sua liberdade.

Há apenas dois meses, O MPF entregou à Justiça Federal de Santa Maria as alegações finais da denúncia criminal contra os acusados de participação na fraude do Detran e manteve o pedido de condenação por formação de quadrilha, peculato, corrupção passiva e ativa, falsidade ideológica, indevida dispensa de licitação e locupletamento em dispensa de licitação.

A irregularidade foi descoberta em 2007 pela Operação Rodin da Polícia Federal. A investigação indicou que fundações contratadas pelo Detran terceirizavam serviços para empresas que superfaturavam os preços e distribuíam propinas para agentes públicos. O esquema funcionava desde 2003 e teria desviado R$ 44 milhões dos cofres públicos.

Passados seis anos da Operação Rodin, a ação criminal originada do escândalo seguia o curso normal quando uma reviravolta jurídica permitiu que os advogados de defesa tivessem acesso ao conteúdo da condenação do MPF. O prazo para defesa foi respeitado, muito diferente do caso que envolveu suposta compra de votos do PT. Aos olhos do STF, na figura do presidente do Supremo, o ministro Joaquim Borbosa, os R$ 10 milhões supostamente faturados pela ‘quadrilha do Mensalão’ devem ser um desvio muito mais grave e seus réus merecem punição mais severa. Sem falar na pouca atenção dada nos últimos meses aos desdobramentos da Operação Rodin que nem se compara às transmissões ao vivo e atualizações minuto a minuto da imprensa no caso do Mensalão.

Coluna social do Diário de Canoas desta semana traz Lair Ferst./Foto: Reprodução Diário de Canoas

Coluna social do Diário de Canoas desta semana traz Lair Ferst./Foto: Reprodução Diário de Canoas

Aliás, bom lembrar que este mesmo STF que agora pede a cassação do mandato de José Genuíno (PT) – réu do Mensalão, rejeitou a inclusão do deputado federal José Otávio Germano (PP-RS) na Operação Rodin. Por maioria de votos, a denúncia contra o parlamentar progressista pela suposta prática dos crimes de formação de quadrilha, peculato e dispensa ilegal de licitação, na época em que foi secretário de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, foi excluída e ele livre do julgamento. A maioria dos juízes do Supremo entendeu que “houve usurpação da competência exclusiva da Suprema Corte para processar, desde a fase instrutória, denúncias contra o deputado federal, em razão do foro por prerrogativa de função que detêm os parlamentares federais”. Único voto discordante no caso, o ministro Luiz Fux entendeu que havia suficientes indícios de autoria e materialidade para o STF aceitar a denúncia e processar o deputado. Além disso, considerou que “as provas contra o parlamentar apareceram posteriormente à abertura do processo contra os demais indiciados na ação penal em curso no primeiro grau que, em função disso, declinou de sua competência para julgá-lo”, conforme nota publicada no site do STF.

Entenda o caso

No dia 5 de agosto de 2009, o Ministério Público Federal protocolou, junto à Justiça Federal, no Rio Grande do Sul, uma ação civil de improbidade administrativa (um documento de mais de 1.200 páginas) contra a governadora Yeda Crusius (PSDB), o ex-marido desta (Carlos Crusius) e mais sete pessoas, entre elas, um deputado federal, dois estaduais e o então presidente Tribunal de Contas do Estado do RS. As acusações: enriquecimento ilícito, dano ao erário e infração de princípios administrativos, crimes relacionados à fraude que desviou cerca de R$ 44 milhões do Detran gaúcho. O MP Federal pediu, entre outras coisas, o afastamento da governadora e o bloqueio de bens da mesma, pedidos que foram negados pela Justiça.

No total, 44 pessoas foram denunciadas pelo MPF à Justiça. Destes 32 se tornaram réus. Dentre eles, estão Carlos Ubiratan dos Santos, ex-diretor do Detran e responsável por firmar o contrato com uma das empresas envolvidas no esquema, a FATEC; Flávio Vaz Netto, que na época do escândalo era o diretor do departamento, sendo considerado um dos operadores do esquema, além de Lair Ferst, coordenador da campanha da governadora, e Paulo Sarkis, ex-reitor da UFSM. A ex governadora Yeda Crusius chegou a ter nome envolvido no processo, mas depois foi retirada por ordem do STJ.